Traduzimos a carta emocionada publicada por J.J. Watt

J.J. Watt divulgou hoje uma carta emocionada em que conta como tem sido esses meses em que está afastado dos campos e foi submetido a diversas cirurgias, devido a recorrentes lesões.
O jogador chegou a questionar até a possibilidade de se aposentar. Mas é de J.J. Watt que estamos falando, e essa carta é tão passional e motivadora quanto ele! Vale a pena ler!
Nada além de admiração e respeito por esse jogador. Esperamos vê-lo em campo, saudável, o mais breve possível!
Segue tradução livre feita pelo NFL de Bolsa (Paula Ivoglo e Michelle De Mentzingen):
"Estávamos prestes a pousar no Aeroporto de Waukesha County, e eu sentei por alguns segundos para dar uma olhada na minha cidade natal do céu. Eles fizeram uma cama para mim no avião porque depois da minha cirurgia, eu não deveria ficar sentado por longos períodos.
Assim que as rodas do avião tocaram o chão, eu lembro de ter pensado, eu precisava disso.
Me esperando lá no terminal estava o Sr. Keefe, marido da lendária Sra. Keefe, minha professora do 4º. Ano. Eu não podia dirigir, e minha cidade natal não é um antro de Ubers, então o Sr. Keefe me pegou, sem perguntar nada.
Foi no começo desse outono. Normalmente, eu nunca estou em casa no outono. As folhas mudaram. O ar estava fresco. A nostalgia tomou conta de mim. Ao dirigirmos para a minha cidade, eu pensei sobre tudo que havia acontecido no último ano.
Uma mão quebrada.
Uma infecção (séria infecção por estafilococos).
Dois músculos do abdômen lesionados.
Três músculos adutores lesionados.
Uma hérnia de disco (duas vezes).
Essa foi minha temporada de 2015. Acredite ou não, a parte mais assustadora foi a infecção.
Em uma sexta-feira a noite na última temporada, eu notei algumas erupções cutâneas no meu joelho. Achei que fosse uma alergia, então eu perguntei para o nosso treinador se ele tinha alguma pomada.
Ele olhou para o meu joelho e disse: “Isso não está com uma cara boa. Temos que ir para o hospital já.”.

No começo achei que ele estava brincando. Mas depois eu pude ver em seu rosto que era sério e na verdade, bem assustador. Acabou que ele me salvou. No hospital, fiquei tomando um antibiótico fortíssimo intravenoso por 3 horas. Eu sai direto do aeroporto para o avião do time, e voamos para Jacksonville. Assim que aterrissamos, foram mais 2 horas de antibiótico aquela noite a mais duas na manhã seguinte antes do jogo. O remédio acabou comigo, mas eu joguei – e nós ganhamos.
Eu lembro de entrar no vestiário depois do jogo e desabar em cima da mesa de treinamento. Meu corpo estava completamente esgotado, sem energia alguma. Quando os treinadores me colocaram no intravenoso novamente, um dos caras passou e brincou: “você está vivo? ”. Mais tarde naquele dia, no voo de volta a Houston, um dos médicos do time me disse que se nosso treinador não tivesse reconhecido o problema tão rápido, eu poderia ter perdido a minha perna.
As pessoas lidam com lesões e doenças todos os dias. Na minha cabeça, eu só estava fazendo o meu trabalho, e o que qualquer pessoa faria se estivesse no meu lugar. Infelizmente, esse foi o início de um ano bem sombrio para mim. Nós ganhamos a divisão e fomos para os playoffs, mesmo jogando com 4 quarterbacks diferentes, mas depois dessa temporada, meu corpo estava destruído.
Em janeiro, eu tive uma cirurgia para reconstruir os músculos adutores e do abdômen. Então, em julho, eu tive uma outra cirurgia para consertar uma hérnia de disco. Em setembro, depois de 3 jogos na temporada de 2016, eu fiz uma outra cirurgia para consertar “reerniação” do mesmo disco. Eu acho que foi meu corpo dizendo: “Boa tentativa”, quando eu tentei antecipar o meu retorno aos campos.
Algumas pessoas começaram a se perguntar se esse era o fim.
Houve um tempo que eu me sinceramente me perguntei: “Será o meu fim? ”
Eu não me sentia mais o mesmo. Eu nunca tive uma cirurgia tão grande antes, muito menos 3 no mesmo ano. Tirar o jogo de mim três vezes – e todas as vezes eu me perguntava se eu seria voltaria a ser o mesmo – foi muito difícil. Essa foi a primeira vez que a palavra aposentadoria passou pela minha cabeça.
Então eu fui pra casa.
Desde a última cirurgia, eu passei os últimos dois meses me recuperando em Wisconsin. Sem poder jogar futebol, sem poder treinar, sem poder fazer absolutamente nada a não ser andar. Não havia entrevistas, redes sociais, comerciais, aparições, nada. Pela primeira vez em 18 anos, eu dei um passo para trás, logo de tudo.
Eu nunca tive os meses de outubro ou novembro livres no meu calendário, desde a 4ª. Série. Eu tinha 9 anos na época, e na minha cidade, você não pode começar a jogar futebol com contato físico até os 10. Apenas mais um ano.
Em uma tarde naquele outono, a Sra. Keefe levou toda a classe do 4º ano na academia de Pewaukee High para que nós pudéssemos ver a preparação do time de futebol. Eles nos apresentaram os jogadores, um por vez, até que vieram com o último. O quarterback.

Eu não precisava ouvir seu nome, eu sabia exatamente quem ele era. J.J. Boyke, número 5, quarterback titular dos Pewaukee Pirates.
Sabe, quando você cresce em uma cidade pequena, sonhando em jogar futebol, não há uma estrela maior no mundo que o quarterback do time do colégio. Claro, eu assistia os Packers na TV, mas eu não sonhava em ser Brett Favre, Reggie White ou Desmond Howard. Qualquer coisa que estivesse na TV era como um faz-de-conta. Não parecia possível. Eu sonhava uma coisa: ser o quarterback titular dos Pirates.
Lembro como se fosse ontem estar nas arquibancadas no “esquenta”, olhando para a academia lotada, vendo os jogadores de futebol e as líderes de torcida se juntarem e fazerem uma daquelas coreografias enquanto a banda tocava. Todo mundo torcia e aproveitava ao máximo.
Pensava comigo mesmo: é isso. É isso que eu quero fazer. Não importa o que eu precise fazer para isso acontecer.
Uma das coisas boas sobre a pausa do pós-cirúrgico foi que isso me deu a oportunidade de voltar a Pewaukee e assistir os Pirates. Feuerstein Field ainda é solo sagrado pra mim. Não importa em quantos estádios eu jogar, da “Big House” ao “Superdome”, eu jamais esquecerei o sentimento que eu tinha quando nós corríamos entrando no gramado usando o vermelho e preto. Eu ainda me lembro de correr pelo túnel das líderes de torcida pela primeira vez na quinta série e marcar um touchdown de 90 jardas no drive inicial…
Para daí haver a chamada de holding na jogada. (Não, eu não sinto mais frustração ou algo assim).
Quando comecei a jogar no time de futebol do colégio, meu melhor amigo e eu mantínhamos uma rotina no dia de jogo por durante quase três anos. Depois da escola, nós dirigíamos com a janela do carro abaixada, som alto e sentíamos aquela calmaria no ar. Aquela calmaria de outono, para mim, ainda é um sinal ao meu cérebro de que é “temporada de futebol”.
Nós sempre íamos até o mesmo pequeno posto de gasolina “Stop-N-Go” na esquina porque eles tinham um “especial de Sexta”. O refrigerante custava só 25 centavos o copo. Então nós dirigíamos até o Noodles & Company para comprar o que comeríamos antes do jogo (que grande plano alimentar para dia de jogo era esse que estava se formando). Nós pegávamos os noodles para viagem e dirigíamos de volta para a escola para o reconhecimento do local do jogo. Mas antes nós íamos para o vestiário e ficávamos de pé em frente a cerca perto da endzone norte, comendo nosso macarrão, vendo a equipe das líderes de torcida aquecer no gramado e o zelador colocar as marcações laranjas de jardas nas sidelines. Cara, que tempo.
Depois do jogo, ou nós íamos ao Denny’s para um café da tarde bem tarde ou a um churrasco de fundo de quintal na casa de alguém. Nós repassávamos toda jogada e todas as séries. Falávamos de tudo, desde aquela vez que o Joe perdeu o bloqueio e literalmente gritou “cuidado!” para o quaterback, até a vez que o treinador Iverson tentou emular o Floyd Mayweather com uma fechadura de metal no intervalo e acabou sujando a primeira fileira toda com sangue. Nós nos sentíamos tão doloridos e cansados mas aquelas noites eram as melhores do mundo.
Se você cresceu no Texas, ou na Califórnia, ou na Flórida, você provavelmente teve uma rotina um pouco diferente, mas acaba sendo o mesmo sentimento.
Quando eu estava na quarta série, eu não sonhava com dinheiro, fama ou prêmios. Eu apenas estava correndo atrás do sentimento.
Então avançamos para 17 anos depois.
Estada eu lá no mesmo campo. Dessa vez como um cara de 27 anos três vezes premiado com o Defensive Player of the Year e um contrato de milhões de dólares. Viajei o mundo todo, fiz comerciais, tive jantares com Presidentes. Conquistei mais coisas na minha vida curta que eu sequer poderia imaginar que era possível para alguém da minha cidade natal.
Mas enquanto eu estava de pé naquele gramado, nada disso importava. Naquele momento, tudo o que eu queria era voltar no tempo e ser aquela criança de novo.
Então, enquanto eu estava divagando ali, um grupo de crianças passou por mim correndo. Uma delas estava usando um uniforme 99 com o meu nome atrás e outra estava usando sapatos com a minha logo neles. Eles estavam correndo para o lugar atrás das arquibancadas onde meus amigos e eu costumávamos jogar o “two-hand touch football”. Eles escolheram os lados e começaram o jogo deles.

Foi como se eu conseguisse ver tudo aquilo em uma tela dividida. De um lado, meus amigos e eu correndo naquele gramado meio desajeitado debaixo das antigas arquibancadas, gritando uns com os outros “sem chance, você só me pegou com uma mão!”. Do outro lado, as crianças correndo no asfalto novo embaixo das renovadas arquibancadas, usando as jerseys com meu nome (Watt).
Naquele momento, eu me senti realizado. Eu estava na verdade emocionado com aquilo. O futebol é tudo para mim desde que eu tinha 10 anos de idade. Pelos últimos meses, tudo isso foi tirado de mim. Foi como uma mini-aposentadoria. E eu percebi que o dinheiro, a fama, os prêmios, as pessoas falando de mim na tv, nada daquilo importava. Nenhuma daquelas coisas afetava a razão pela qual amo esse jogo e porque eu dou tudo o que tenho para dar a isso.
Não me entenda mal, aquelas coisas são bacanas e eu reconheço o quão afortunado eu sou por ganhar o dinheiro que eu ganho e passar pelas coisas que eu passo, mas não é por isso que eu sou fissurado. Eu sou fissurado pelo sentimento de estar completa e totalmente gasto. Quando você sai de campo depois de dois treinos num dia só no meio de agosto encharcado em suor, completamente exausto. Quando você termina um treino na academia às 6 horas da manhã antes da escola e está lutando para manter seus olhos abertos na primeira aula. Quando você senta em volta da fogueira após o jogo com os seus meninos, e seu corpo não aguenta mais nada. Você está quase entorpecido. E você sabe que você deu tudo de si.
É disso que eu sinto falta. Dos “esquentas”. Da música alta enquanto dirijo para o jogo. Daquele primeiro ar fresco de outono no ar.
Estando lá, olhando as crianças e isso tudo veio à tona.
Sim, ao longo do ano passado, eu passei por momentos complicados e meu corpo esteve perto de colapsos mais vezes que as pessoas provavelmente perceberam. Mas eu aprendi que a vida sem adversidade é chata de se viver. Eu vivi os altos, eu vivi os baixos e ambos são melhores do que viver pela metade, no meio.
A criança em mim voltou.
Será meu fim?
Jamais.
Estou só começando."

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